sábado, 13 de janeiro de 2018

LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO [ III ]

«O LARGO DA ABEGOARIA E AS CONFERÊNCIAS NO CASINO LISBONENSE»
 Largo Rafael Bordalo Pinheiro - (2014)  -  (Um dos vértices do "LARGO" que liga com a "RUA SERPA PINTO". O prédio à nossa direita era o velho "CASINO LISBONENSE". A foto seguinte é semelhante, só que tem 110 anos de diferença)  in  GOOGLE EARTH
 Largo Rafael Bordalo Pinheiro - (c. 1904) Postal Ilustrado de José Artur Leitão Bárcia -  (O antigo "LARGO DA ABEGOARIA", à direita o Edifício do Casino Lisbonense onde decorreram as CONFERENCIAS DEMOCRÁTICAS em 1871)  (ABRE EM TAMANHO GRANDE)  in  AML 
 Largo Rafael Bordalo Pinheiro - (ant. a 1905) - Foto de autor não identificado -  (RAFAEL BORDALO PINHEIRO já nos finais de sua vida)  (ABRE EM TAMANHO GRANDE in  WIKIPÉDIA
 Largo Rafael Bordalo Pinheiro - (1903) - PARÓDIA Comédia Portugueza Nº. 6 de 18 de Fevereiro de 1903 -  Aqui estamos nós a celebrar o ENTRUDO com pompa, música e dança na companhia do Sr. Conselheiro "CHÉCHÉ" e da sua mimosa comitiva. Diz BORDALO PINHEIRO que estão todos muito divertidos! Pois bem, vamos a isto que "a vida são dois dias e o CARNAVAL são três"!... e nós não queremos perder pitada!)  in  MUSEU BORDALO PINHEIRO
Largo Rafael Bordalo Pinheiro - (1882)  -  (Em "ALBUM DAS GLÓRIAS" Nº. 28-Maio de 1882 - Litografia - (Retratando MANUEL DE ARRIAGA  com a toga de Doutor em Direito) (ABRE EM TAMANHO GRANDEin  FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES 


(CONTINUAÇÃO) - LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO [ III ]

«O LARGO DA ABEGOARIA E AS CONFERÊNCIAS NO CASINO  LISBONENSE ( 1 )»

Em finais de 1869, inicio de 1870, tocava-se todas as noites neste salão, onde a novidade era o "CAN-CAN" que entusiasmava a boémia da época, a célebre "POLKA" dedicada a "BERTA", linda e estonteante bailarina alemã, que actuava no "SÃO CARLOS".
Depois de "CAFÉ CONCERTO" passou a chamar-se  "CASINO LISBONENSE", com os seus bailes de máscaras a obterem grande êxito.
Vamos então falar um pouco das certamente famosas «CONFERÊNCIAS DO CASINO». (Para compreender todo o alcance das "CONFERÊNCIAS" convém notar que se estava então num ano de grandes acontecimentos. No ano de 1871, remate da unificação de ITÁLIA, queda do II IMPÉRIO FRANCÊS, guerra franco-prussiana, Comuna de PARIS.  No plano interno é o ano em que a ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES, fundada em 1864, se estende a PORTUGAL, com a Cooperação de "ANTERO DE QUENTAL"). [FONTE: História da Literatura Portuguesa- pág. 802 e 803].

"JOSÉ MARIA EÇA DE QUEIRÓS"(1845-1900), ao chegar em 1870 a LISBOA, com 25 anos, vindo da pacata LEIRIA, ficou impressionado por um cartaz do "CASINO", onde se anunciavam cançonetas francesas por MADAME BLANCHE, e ma a l sonhava ele quanto o CASINO iria prejudicar a sua carreira de CÔNSUL.
Um dia "JOSÉ FONTANA", um agitador de sangue italiano que foi empregado na "LIVRARIA BERTRAND", tornado companheiro de um idealista - ANTERO TARQUÍNIO DE QUENTAL (1842-1891) - veio alugar a "SOARES ZAGALO" as salas do "CASINO LISBONENSE".
ANTERO, EÇA, SALOMÃO, SARRAGA, LOBO DE MOURA, OLIVEIRA MARTINS e depois RAMALHO e outros, já não podiam conter o seu entusiasmo rebelde condicionado à esterilidade das paredes mudas. A propaganda directa impunha-se. Havia um "PROGRAMA" embora não existisse uma "DOUTRINA".
ANTERO convida TEÓFILO para o grupo inovador e, no dia 22 de Maio de 1871, ANTERO iniciava as «CONFERÊNCIAS DEMOCRÁTICAS» a 100 réis a entrada.

O programa trazia a data de 16 desse mês e era assinado por ANTERO, ADOLFO COELHO, AUGUSTO SOROMENHO, AUGUSTO FUSCHINI, VIEIRA DE MEIRELES, BATALHA REIS, GUILHERME DE AZEVEDO, EÇA DE QUEIRÓS, OLIVEIRA MARTINS, MANUEL DE ARRIAGA, SALOMÃO SARRAGA e TEÓFILO DE BRAGA. A apresentação do programa fez-se na sala do rés-do-chão, mas a concorrência logo aconselhou que fosse escolhido o "SALÃO DE FESTAS".
Em 27 de Maio, o poeta das «ODES MODERNAS» disse a sua conferência - a primeira - sobre as «CAUSAS DA DECADÊNCIA DOS POVOS PENINSULARES NOS ÚLTIMOS TRÊS SÉCULOS».
Estiveram a ouvir "ANTERO" e cerca de quatrocentas pessoas. Existiram reparos, discussões e consultas.  Em 5 de Junho coube a vez a "AUGUSTO SOROMENHO", que discreto sobre «CHATEAUBRIAND e a LITERATURA MODERNA». Atacando os clássicos, não falou em GARRETT. Isto terá impressionado toda a plateia. 

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO [ IV ] O LARGO ABEGOARIA E AS CONFERÊNCIAS DO CASINO LISBONENSE ( 2 )».

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO [ II ]

«O LARGO DA ABEGOARIA ( 2 )»
 Largo Rafael Bordalo Pinheiro - ( 2014 ) - ( O "LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO" visto de Sul para Norte. O a loja com o toldo à direita é o antigo "REI DAS MEIAS")  in   GOOGLE EARTH
 Largo Rafael Bordalo Pinheiro - (2005)  - ("Álbum das Glórias" de Rafael Bordalo Pinheiro, edição comemorativa do centenário de sua morte 1905-2005)  in  OLX
 Largo Rafael Bordalo Pinheiro - (entre 1955 e 1970) Foto de Artur Pastor -  (O Largo Rafael Bordalo Pinheiro)  (ABRE EM TAMANHO GRANDE)    in   AML 
 Largo Rafael Bordalo Pinheiro - (1902) - (Estados dos corpos e das almas no presente Verão de 1902 - in "A Paródia" 1902 de R.B.P. - Legenda: À Sombra dos Imortais Princípios - As duas soberanias) (ABRE EM TAMANHO GRANDE)   in   QUADROGIZ
Largo Rafael Bordalo Pinheiro - ( 1880 ) Litografia colorida  -  (LOPES TROVÃO do "ALBUM DAS GLÓRIAS" de Rafael Bordalo Pinheiro)  in    WIKIPÉDIA

(CONTINUAÇÃO)- LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO [ II ] 

«O LARGO DA ABEGOARIA ( 2 )»

Que existiu aqui uma "ABEGOARIA", existiu! Mas qual e onde? A possível extensão do vocabulário, de abrigo de bois e vacas, para abrigadoiro de gado cavalar e muar, poderia explicar a sinonímia atribuindo-a às cavalariças e oficinas  de SEGES cujos proprietários, em geral, faziam com a venda e compra de carros, o negócio das indispensáveis cavalgaduras. Porém está aqui a solução...  No ano de 1856 o "LARGO DA ABEGOARIA" tal como em 1776, era uma das praças destinadas para venda de hortaliças, pelo EDITAL de 24 de JULHO.
Em 1857 passou a ser «PRAÇA» das «SEGES» de aluguer, que até aí estacionavam na "RUA DO TESOURO VELHO" (actual Rua António Maria Cardoso). Outro EDITAL de 14 de Dezembro de 1863, confirmou a "PRAÇA", e o "LARGO" foi então, também destinado para a venda de leite.
Com o EDITAL de 11 de Março de 1867, voltou a manter a «PRAÇA», limitando-a, porém, só para seis trens, depois de ter estado, provisoriamente, no "LARGO DO PICADEIRO"(hoje na antiga freguesia dos MÁRTIRES), e para onde voltou.
Em 1869 regressa novamente para a «ABEGOARIA»; mudou-se a seguir para a "RUA DA HORTA SECA, tornou novamente para aqui, anichando-se seis trens em 1870 no lado Poente do LARGO e doze na "TRAVESSA NOVA DO CARMO" ( 1 ).  Depois acabou a «PRAÇA», acabaram os trens, acabou tudo, só ficou o "LARGO DA ABEGOARIA", ornado depois com uma placa central,  e a seguir, nem a «ABEGOARIA» ficou, passou para "LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO" em 1915.

Na esquina do antigo "LARGO DA ABEGOARIA" esquina com a "TRAVESSA DA TRINDADE" (antiga TRAVESSA DAS POSTAS DE SANTA CATARINA") existiu no século XIX, um salão de espectáculos, concertos e bailes, inaugurado em 26 de Dezembro de 1857. Chamava-se "O CAFÉ CONCERTO", de uma Empresa que se constituiu com o capital de 40 contos de réis, em acções de 50 mil réis.
Neste "CAFÉ CONCERTO" incluía-se um botequim como termo obrigatório da jornada "citérica" dos frequentadores. Numa das noites deu-se um desacato (referido por TINOP), na "LISBOA DE OUTROS TEMPOS" Volume 2.º, OS CAFÉS - páginas 266-267.
Duas mulheres (damas dessa época) ao tentar forçar a entrada, terão agredido o oficial da guarda e acabaram por serem presas. O "CAFÉ CONCERTO" não começava muito bem. No entanto iam-se realizando vários espectáculos, alguns com extraordinários artistas da época, como o actor "TABORDA".
Na época de 1864-65 realizaram-se aqui concertos, por uma orquestra francesa dirigida pelo maestro "EMÍLIO BUILLON" ( 2 ).


- ( 1 ) - ARCHIVO MUNICIPAL de 1863, pág. 1657; idem 1867, página 3052; Idem de 1869, pág. 5 ; Idem de 1869, pág. 385; Idem de 1870, pág. 545.

- ( 2 ) - "A CARTEIRA DO ARTISTA", de SOUSA BASTOS, pág. 43.

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO [ III ] O LARGO DA ABEGOARIA E AS CONFERENCIAS DO CASINO LISBONENSE ( 1 )».

sábado, 6 de janeiro de 2018

LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO [ I ]

«O LARGO DA ABEGOARIA ( 1 )»
 Largo Rafael Bordalo Pinheiro - (2014)  -  (Panorâmica do sítio da Trindade onde se insere o "LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO" antes chamado de "LARGO DA ABEGOARIA)  in  GOOGLE EARTH
 Largo Rafael Bordalo Pinheiro - (1870)  -  (Página de sátira "A BERLINDA" de Rafael Bordalo Pinheiro )   in   HISTÓRIAS COM HISTÓRIAS
 Largo Rafael Bordalo Pinheiro -  (29 de Outubro de 1870) -  ( O BINÓCULO - Hebdomadário de caricaturas,  espectáculos e literatura de Rafael Bordalo Pinheiro)  (ABRE EM TAMANHO GRANDE)  in   HEMEROTECA DIGITAL DE LISBOA 
 Largo Rafael Bordalo Pinheiro - (1903)  -  (O ZÉ POVINHO na história publicada na revista "A PARÓDIA") (- nunca se levanta que se não deite-)  in  CONVERSAS EM PORTUGUÊS
Largo Rafael Bordalo Pinheiro - (1960-12) - Foto de Armando Maia Serôdio  -  (As iluminações de NATAL no "LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO" numa noite dos anos sessenta)  in  AML 

(INÍCIO) - LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO [ I ]

«O LARGO DA ABEGOARIA ( 1 )»

O «LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO» (antigo "LARGO DA ABEGOARIA) pertencia à freguesia  do "SACRAMENTO", hoje pela REFORMA ADMINISTRATIVA DE LISBOA DE 2012, passou a fazer parte da freguesia de "SANTA MARIA MAIOR". Este "LARGO" fica entre a "RUA DE SERPA PINTO", "RUA DA TRINDADE" e "TRAVESSA DO CARMO".
No "LARGO" outrora chamado "ABEGOARIA" do início do século XIX,  por EDITAL MUNICIPAL de 11 de Fevereiro de 1915, ficou perpetuado "RAFAEL BORDALO PINHEIRO", pintor, ceramista e caricaturista, numa placa cerâmica do tipo florão e também por ter habitado largos anos neste LARGO, onde viveu e acabou por ali falecer.

A história desta "PRACINHA", colocada quase estrategicamente um pouco acima do CARMO  e paredes meias com a TRINDADE, ou seja entre o "CARMO E A TRINDADE"... tem muito que contar.
O "LARGO DA ABEGOARIA" era em 1755 muito mais estreito que na actualidade. A recordação do Terramoto de 1755 esteve neste local patente durante muitos anos  e as reconstruções muito difíceis.
Sabe-se que por aqui foram erguidos  vários PALÁCIOS dos quais hoje não há vestígios, no entanto, há registos de alguns titulares; o "PALÁCIO DOS ALCÁÇOVAS CARNEIROS", Secretário do ESTADO.  Nas redondezas  do CARMO levantava-se o PALÁCIO nobilíssimo dos "MARQUESES DE ARRONCHES", e DUQUE DE LAFÕES, cheios de preciosidades, que tudo o fogo devorou em 1755. 
Defronte da fachada SUL do "CONVENTO DA TRINDADE" foram. pouco a pouco erguendo barracas, construções provisórias e telheiros que deram ao local um aspecto de acampamento. Os frades tinham arrendado o velho templo arruinado, que se transforma em armazém. Onde hoje está aquele prédio, erguido pelo "DR. LOURENÇO DE ALMEIDA E AZEVEDO" depois de 1886,  que tornejava para o "LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO" e dava para a "RUA NOVA DA TRINDADE", formando um pedaço da face SUL da "RUA DA TRINDADE", no sítio onde fora o PALÁCIO DOS ALCÁÇOVAS CARNEIROS arruinado e incendiado em 1755, era um amontoado de construções informes que em 1760 pertenciam a "FRANCISCO VELHO OLDEMBERG".
Em 1816 era anunciado na GAZETA de 23 de Fevereiro, a venda de um terreno na "RUA DA TRINDADE", com uma casa de três andares, com porta de pátio, fazendo cunhal e frente para a mesma RUA. Nesse terreno existia um telheiro e uma estância de Madeira     ( 1 ) .  Esse "LARGO" que havia de nascer era o da "ABEGOARIA".  Em 6 de Outubro de 1817 publicava a GAZETA outro anúncio de venda de carruagens, "traquitanas", Seges, Carrinhos Ingleses, etc., chamava ao sítio "na RUA DA TRINDADE ao CARMO, no LARGO DA ABEGOARIA",  e no suplemento do Diário do Governo de 06.05.1822, ao anunciar-se, também, a venda de carruagens e Seges, chamaram-lhe "Largo de Estevam Galhardo", ao "Carmo". A Toponímia ainda não estava devidamente bem fixada. A « de ABEGOARIA» veio, porém, a perpetuar-se ( 2 ) até 1915.

- ( 1 ) - É o prédio que faz um recanto e torneja da RUA NOVA DA TRINDADE para a  RUA DA TRINDADE, pegado à casa dos azulejos. 

- ( 2 ) - Junto à (antiga) RUA ORIENTAL do PASSEIO PUBLICO havia, em finais de 1844, outro "LARGO DA ABEGOARIA", onde se construiu o "CIRCO MADRID" (Diário do Governo de 31.12.1844) é hoje o "LARGO DA ANUNCIADA".


(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO [ II ] O LARGO DA ABEGOARIA (2 )»

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

BOAS FESTAS

«BOAS FESTAS»




- Desejamos a todos os "BLOGUISTAS», visitantes desta página, familiares e amigos,   FELIZ NATAL e um BOM ANO DE 2018.

- Como vem sendo habitual vamos fazer uma pausa, voltaremos se DEUS quiser e nos dê muita força para isso, no próximo ANO com mais RUAS. Até lá, espero que vivamos esta quadra com espírito NATALÍCIO.         -  RUAS DE LISBOA COM ALGUMA HISTÓRIA -  APS

PENSAMENTO  - "Não há verdadeira força sem serenidade, nem verdadeira grandeza sem modéstia" (EÇA DE QUEIROZ).

(PRÓXIMO) «LARGO RAFAEL BORDALO PINHEIRO   [ I ]  O LARGO DA ABEGOARIA ( 1 )».

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

ÍNDICE DE ARTÉRIAS EDITADAS NESTE BLOGUE DURANTE O ANO DE 2017

«ÍNDICE DE RUAS DURANTE O ANO DE 2017»

ÍNDICE DE - LARGO, PRAÇAS RUAS E TRAVESSAS REPRESENTADOS POR ORDEM ALFABÉTICA.

FREGUESIAS REPRESENTADAS ESTE ANO: AJUDA - AVENIDAS NOVAS - AREEIRO - ARROIOS - BENFICA - ESTRELA - LUMIAR - MARVILA - MISERICÓRDIA - PENHA DE FRANÇA - SANTA MARIA MAIOR - SANTO ANTÓNIO  E  SÃO DOMINGOS DE BENFICA.

O ÍNDICE DE ARRUAMENTOS ESTÁ ELABORADO POR ORDEM ALFABÉTICA.

ESTE ANO FORAM TRATADOS:  1 LARGO  -  2  PRAÇAS  13 RUAS   e  2 TRAVESSAS,  num total de 96 publicações referentes a arruamentos de LISBOA.


(PRÓXIMA)--«BOAS FESTAS»

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

RUA DO CAPELÃO [ IV ]

«A SEVERA REPRESENTADA NO TEATRO, EM OPERETA E NO CINEMA»
 Rua do Capelão - (Entre 1825-1881)  -  ( A única imagem conhecida que pode, com alguma verosimilhança, ser considerada como retratando  "A SEVERA", é este esboço a tinta da china (17 X 11,8 cm) encontrado no espólio do artista e pintor FRANCISCO METRASS. Apresenta no verso a simples nota: "A SEVERA" in Guitarra de Portugal - Nº 366)   in   LIVRO HISTÓRIAS DO FADO 
 Rua do Capelão - (19--) Foto de Eduardo Portugal   - (A antiga "RUA DO CAPELÃO" hoje "LARGO DA SEVERA", povo da Mouraria num Domingo ameno, mostrando os seus trajes populares no início do século XX) (ABRE EM TAMANHO GRANDE)   in   AML 
 Rua do Capelão - (1971) - Foto de Armando Maia Serôdio  -  (A "RUA DO CAPELÃO", casa onde viveu a fadista MARIA SEVERA, no sítio da MOURARIA)  (ABRE EM TAMANHO GRANDE)  In  AML 
 Rua do Capelão - (2008)  -  ( Na "RUA DO CAPELÃO" junto ao "LARGO DA SEVERA" existe uma placa assinalando que ali morou "MARIA SEVERA ONOFRIANA", sublime do fado, faleceu em 30.11.1846 com 26 anos de idade. LISBOA - 3.6.1989)  in  LISBOA S.O.S.
 
Rua do Capelão - (10.10.2008)  -  (Cartaz do Filme de LEITÃO DE BARROS "A SEVERA" história da conhecida "cigarra"   criada pelo ilustre escritor "JÚLIO DANTAS")    (ABRE EM TAMANHO GRANDE)  in    LISBOA S.O.S.
Rua do Capelão - (10.10.2008)  -  (Peça  " A SEVERA" em 4 actos representada no Teatro "DONA AMÉLIA" - actual SÃO LUÍS - , adaptação do romance de "JÚLIO DANTAS" apresentado nesta foto)  (ABRE EM TAMANHO GRANDE)  in   LISBOA S.O.S. 

(CONTINUAÇÃO) - RUA DO CAPELÃO [ IV ]

«A SEVERA REPRESENTADA NO TEATRO, EM OPERETA E NO CINEMA»

Até certa altura «SEVERA» era uma figura da tradição boémia com o seu anedotário, a sua auréola das esperas de toiros, e seu destino na cama desconfortável de um hospital da época. De compreensão fácil, inteligência e com algumas luzes de instrução, pois sabia ler, escrever e contar, ela tinha a noção do descalabro da sua vida, da impossibilidade de a refazer e da proximidade do seu fim. Não se iludia! Sofrendo com os períodos menstruais, passou também a sofrer da garganta e a partir de certa altura ficou com a voz velada, enrouquecida.
Acontecia-lhe por vezes perder os sentidos e expelir sangue pela boca, acidentes ao que ala chamava "VADAGAIOS". Mas não se poupava. O "CONDE DE VIMIOSO", que tentou contrariar-lhe os vícios do tabaco e da bebida, nada conseguiu. Por último, deu-lhe para beber café fortíssimo. Queria morrer e...  morreu.
Não está determinado o período em que a SEVERA manteve relações intimas com o "CONDE DE VIMIOSO", as quais, no entanto, não chegaram a durar dois anos (talvez entre 1843 e 1845). parecendo que foi ela quem, reconhecendo a inviabilidade dessa ligação, tomou a iniciativa de se afastar do titular, por quem se apaixonara. mas que, de facto, pela sua posição social, não era homem para si. Essa paixão contribuirá, aliás, para agravar as desventuras de MARIA SEVERA, que despertando do seu sonho dourado se sentiu ainda mais infeliz.

"TINOP" revela-nos também que SEVERA antes de encetar amores com o "CONDE DE VIMIOSO", tivera um namorado com um rapaz da "MOURARIA", o "CHICO DO 10" (alcunha por ter pertencido ao Regimento de Infantaria 10),  o qual, por ciúmes, assassinou na "RUA DO CAPELÃO" um rival à navalhada, pelo que foi expirar a culpa nas costas de "ÁFRICA", e por lá morreu.
"MARIA SEVERA" criada ao Deus-dará, vivendo desde criança em ambientes nada dignificantes, que mais se poderia esperar dela? Um amigo chegou a instalá-la numa casa da "RUA DA BEMPOSTA" e depois noutra de que era proprietário, na "RUA DA AMENDOEIRA", onde ela e a mãe viveram viveram algum tempo. Será, porém, naquela casa da "RUA DO CAPELÃO" (hoje com o número 36) que ainda teima em resistir e onde recebeu alguns dos mais ilustres fidalgos de então, assim como figuras gradas da tauromaquia, que a "SEVERA" havia de experimentar o gosto irrefutável da popularidade e também o travo amargo do mais profundo desalento.

A notícia da morte de "MARIA SEVERA" teve um certo eco doloroso entre todos os que tocavam e cantavam o (FADO); deixando funda impressão no ânimo do fidalgo que ela popularizou na " BANZA"( 1 )  com seus improvisos.  E dizia a SEVERA cantando...
                           Tenho vida amargurada,
                           Ai que destino infeliz!
                           Mas se sou tão desgraçada
                           Não fui eu que assim o quis.

                           Quando eu morrer, raparigas,
                           Não tenham pesar algum
                           E ao som das vossas cantigas
                           Lancem-me à vala comum.
Pese esta celebridade, é contudo indiscutível  que o maior contributo dado para a entrada definitiva da "RUA DO CAPELÃO" no imaginário fadista e lisboeta, acabaria por ser dado por alguém que com o meio nada tinha em comum: o mito circunspecto escritor e dramaturgo "JÚLIO DANTAS" (1876-1962) que em 1901 escreveu uma peça aproveitando o essencial da história da SEVERA, alterando contudo bastantes aspectos do que é possível considerar verdade histórica: o "CONDE DE VIMIOSO" é trocado por um "CONDE DE MARIALVA", a "SEVERA" é dada como de origem CIGANA etc.. O enredo dramático da peça de DANTAS é inteiramente baseado na "A DAMA DAS CAMÉLIAS" de ALEXANDRE DUMAS FILHO (1824-1895) que a escreve inicialmente como novela, publicando-a como peça Teatral em 1852.
Tal peça serviria igualmente de base ao libreto da Ópera "LA TRAVIATA" composta por "GUISEPPE VERDI" nesse mesmo ano.
Estreado em 25 de Janeiro de 1901 no TEATRO DONA AMÉLIA (hoje SÃO LUÍS) a peça de "DANTAS" contou com uma soberba criação de "ÂNGELA PINTO"(1869-1925) na protagonista e foi um êxito à sua adaptação a opereta, com o mesmo título em 1909. Para esse novo espectáculo, o autor contou com a colaboração preciosa de um dos mais populares e talentosos dos escritores teatrais da época, "ANDRÉ BRUN (1881-1926) com música do maestro e compositor FILIPE DUARTE (1855-1928). Em 1931 foi apresentado "A SEVERA" o primeiro filme português sonoro, realização de "LEITÃO DE BARROS".
Em 1957 "VASCO MORGADO" apresenta "AMÁLIA RODRIGUES" no TEATRO MONUMENTAL (sendo Amália, uma estreia no teatro declamado) ao lado de "ASSIS PACHECO" na obra prima do TEATRO português "A SEVERA" original do dramaturgo "JÚLIO DANTAS".

- ( 1 ) - BANZA - s.f. (pop.) viola, guitarra.

BIBLIOGRAFIA

- "ALFACINHAS" os lisboetas do passado e do presente - ALBERTO SOUSA - 1964 -LISBOA
- ARAÚJO, Norberto de - Peregrinações em LISBOA- Livro III-Vega - 1992-LISBOA.
- DICIONÁRIO DA HISTÓRIA DE LISBOA-Direc. de Francisco Santana e Eduardo Sucena - 1994-LISBOA.
- HISTÓRIA DA LITERATURA PORTUGUESA - de A.J. SARAIVA e Óscar Lopes -Porto Editora-17.ª Ed. - 1996 - PORTO.
- HISTÓRIA DO FADO - de MARIA GUINOT-RUBEN DE CARVALHO e JOSÉ MANUEL OSÓRIO - EDICLUBE - 1999 - LISBOA
- HISTÓRIA DO TEATRO DE REVISTA EM PORTUGAL - de Luiz Francisco Rebello - Vol. I - PUB. DOM QUIXOTE - 1984 - LISBOA.
- LISBOA EM 1551.- SUMÁRIO  - CRISTÓVÃO RODRIGUES DE OLIVEIRA - Ed. LIVROS HORIZONTE - 1987 - LISBOA.
- LISBOA, O FADO E OS FADISTAS - de EDUARDO SUCENA - VEGA - 2002 - LISBOA.
- NOBREZA DE PORTUGAL E DO BRASIL - Coord. A.E.M. ZUQUETE - Editorial Enciclopédica, Lda. - 1961 - LISBOA. 

INTERNET

- JUNTA DE FREGUESIA DA MADRAGOA
- REVELAR LX
- TOPONÍMIA DE LISBOA
- UNIVERSIDADE DO MINHO

(PRÓXIMO) - «ÍNDICE DE: LARGO, PRAÇAS, RUAS e TRAVESSA - EM 2017 E FREGUESIAS».

sábado, 2 de dezembro de 2017

RUA DO CAPELÃO [ III ]

«DA SEVERA AO VIMIOSO»
 Rua do Capelão -  (2012) - Foto de Mário Marzagão  -  (A "RUA DO CAPELÃO" na MOURARIA freguesia de "SANTA MARIA MAIOR" foi o último lugar que "MARIA SEVERA" habitou)  in  MÁRIO MARZAGÃO ALFACINHA
 Rua do Capelão  - (início do século XX) Desenho de Roque Gameiro  -  (A "RUA DO CAPELÃO" tal como a encontrou e desenhou "ROQUE GAMEIRO" no século vinte)  in  MÁRIO MARZAGÃO ALFACINHA
 Rua do Capelão  - (1968)  Foto de Armando Maia Serôdio  -  (As casas seiscentistas da "RUA DO CAPELÃO", vistas da RUA DA MOURARIA)    in     AML
 Rua do Capelão - (184-)  -  (Retrato do "CONDE DE VIMIOSO", amante de "MARIA SEVERA", publicado no jornal "A TRINCHEIRA" em 1893 - BIBLIOTECA NACIONAL in  ALFACINHAS OS LISBOETAS DO PASSADO E DO PRESENTE
 Rua do Capelão - (1902) Postal ilustrado de promoção do espectáculo  -  (Postal editado em 1902 para a divulgação da REVISTA "NA PONTA DA UNHA", apresentada na RUA DOS CONDES: com um quadro da "SEVERA" representada por "ROSA OLIVEIRA" e "ACÁCIA REIS" no papel de "ROSA ENJEITADA" uma revista de ALFREDO MESQUITA e CÂMARA LEME)  in  HISTÓRIA DO FADO
 Rua do Capelão - (1964) Desenho de ALBERTO SOUSA  -  (Em 1964 aparece um livro com os estudos de ALBERTO DE SOUSA, com o titulo: "ALFACINHAS-os lisboetas do passado e do presente". O artista terá sido levado em erro ao atribuir o nome da "SEVERA" a "Rosa Oliveira", embora estivesse a representar um quadro da SEVERA e a ROSA ENJEITADA")  in  ALFACINHAS OS LISBOETAS DO PASSADO E DO PRESENTE
Rua do Capelão - (29.04.2014) - (Painel de azulejos representando um quadro de JOSÉ MALHOA de RUI CAMPOS-Azulejaria Artística)  -  (Um Painel de azulejos representando o "FADO DE MALHOA" do pintor Caldense JOSÉ MALHOA)   in   FADO MALHOA


(CONTINUAÇÃO) - RUA DO CAPELÃO [ III ]

«DA SEVERA AO VIMIOSO»

«MARIA SEVERA ONOFRIANA" (1820-1846)  é o nome mais destacado, da primeira geração de fadistas. Rameira afamada pela têmpera rija, a mestria na dança e canto do fado e o romance que mantinha com o "13.º CONDE DE VIMIOSO - DOM FRANCISCO PAULA DE PORTUGAL E CASTRO", insigne Cavaleiro Tauromáquico.
"MARIA SEVERA" era conhecida no seu tempo como autora (improvisadora) de célebres quadras de despique e galhardia, das quais "TINOP" regista, entre outras façanhas. 
O ambiente taurino que a fadista evoca, e que constitui um dos principais divertimentos populares da época ( 1 ),  espalhava-se pelas tabernas e retiros ( 2 )  que acompanhavam  os percursos das manadas desde os campos  Ribatejanos aos locais urbanos das lides (ESTRADA DE SACAVÉM e do LUMIAR) e é o contexto físico e cultural onde o fado fado começou por ser cultivado e onde destronou os antigos cantares como: o "lundum", a "fofa" e o "fandango" que antes dele ali se praticava.
Até finais do século XIX, fado e touradas andavam a par, com a particularidade de a lide portuguesa incluir a participação de cavaleiros aristocratas. Os contactos entre a aristocracia e o povo prolongavam-se então nos locais de sociabilidade nocturna dos bairros populares, "nas equívocas relações entre a pobreza, e o excesso, o jogo, a criminalidade e a prostituição, onde o fado deu os primeiros passos".
O par "SEVERA" e "VIMIOSO" é fruto dessa convivência, em que figuram muitas outras personagens históricas, entre elas partidários miguelistas.

A "MARIA SEVERA", figura romanesca de LISBOA popular de meados do século XIX, que havia de ser transformada em «ÍCONE» e mito do fado.
Diz-nos ainda "TINOP" a "SEVERA" conheceu o crime, o "CONDE DE VIMIOSO", que se aproximou, atraído pela fama que ela desfrutava de tratar por tu as musas fáceis, de ter um palavreado muito típico e de cantar, inigualável, ao som namorado da soluçante guitarra.  Foi o amor pelas guitarras e pelo doce canta - em que são abordados os temas de ascendência ao desejo - que levou o "CONDE DE VIMIOSO" a procurar "MARIA SEVERA", porque ele não tocava, não cantava e não tinha o mínimo gosto para a música. No entanto, o "CONDE DE VIMIOSO" vinha, muitas vezes, buscar a "MARIA SEVERA" de "SEGE", à "RUA DO CAPELÃO".

"PINTO DE CARVALHO" (TINOP) cronista fiel da vida alfacinha da pitoresca segunda metade de Oitocentos, que  conheceu  SEVERA e lhe falou, traça deste modo um retrato que não deve ter sido ornado de fantasias: "MARIA SEVERA não era mulher para pieguices, nem para choradeiras. Forte e determinada como alguma dessas (Viragos)( 3 )  de que rezam as crónicas, com os cabelos soltos, e o clássico cigarro ao canto da boca, não pretendia ser amada pelos seus dotes femininos, mas comprazia-se em dominar os seus admiradores pela suavidade da sua vos de meio-soprano, pelo gracioso desembaraço da sua dança voluptuosa e, acima de tudo, pela irascibilidade do seu génio  e não pouco também, pela fortaleza do seu punho".

- ( 1 ) -No século XVIII havia em LISBOA quatro PRAÇAS DE TOIROS: a da "ESTRELA" (no actual "JARDIM DA ESTRELA", a da "PARADA", junto do ROSSIO, a do "SALITRE" e a do "CAMPO DE SANTANA", além do "TERREIRO DO PAÇO" onde foram realizadas touradas de grande pompa. (PIMENTEL, 1904:131). A "PRAÇA DE TOUROS DO CAMPO PEQUENO" foi edificada em 1892.

- ( 2 ) -Verdadeiros "TEMPLOS DO FADO" celebrizados  nas letras da canção até hoje, de que são exemplos: "O FERRO DE ENGOMAR", "O CHARQUINHO", "O CALIÇA", ou "O PERNA DE PAU".

- ( 3 ) -VIRAGO- Do Latim, significa semelhança a um homem e era uma palavra usada para descrever mulheres, geralmente em contexto Mitológico.

(CONTINUA)-(PRÓXIMO)«RUA DO CAPELÃO[ IV ]-A SEVERA DO TEATRO, À OPERETA E AO CINEMA».