terça-feira, 8 de janeiro de 2008

RUA DA HORTA SECA

Rua da Horta Seca 24-43 (Casa da Imprensa) foto de João H. Goulart sem data in Arquivo Fotográfico da CML
Rua da Horta Seca -Palácio do "Manteigueiro" sede da MOBIL OIL Portuguesa foto de Armando Serôdio ano de 1968 in Arquivo Fotográfico da CML

Rua da Horta Seca foto de João H. Goulart (1969) in Arquivo Fotográfico da CML


Rua da Horta Seca - Palácio Condeixa foto de Joshua Benoliel (1912) in Arquivo Fotográfico da CML



Jardim do Palácio do "Manteigueiro" no tempo da MOBIL OIL (1964)

A Rua da Horta Seca pertence à freguesia da ENCARNAÇÃO, começa no Largo de Camões número 16 e termina na Rua das Chagas no número 22. Esta rua de curioso nome que virá do facto de ali terem existido terras de cultivo, como atesta aliás a vizinha Travessa do Sequeiro.
Diz Mestre Júlio de Castilho: «a próxima rua da Horta Seca ainda tem relação com Vasco de Pina, essa horta sequiosa e árida, tão vizinha do sequeiro que deu nome à travessa, era do vedor dos pinhais de Leiria (Vasco de Pina) e como tal é mencionada nas confrontações de um chão ali pelos sítios do actual Largo do Barão de Quintela».(1)
Esclarecemos agora que este Vasco de Pina tinha casado com Isabel de Andrade, filha de Bartolomeu de Andrade, proprietário das herdades do Poço do Chapuz e da Boa Vista, (veja-se Rua do Ataíde - Lisboa de Lés a Lés Volume I, páginas 234 e 235), as quais passaram depois da morte para a posse de seu genro que à casa dos Atouguias continuou pagando o foro imposto naquelas herdades.(2)
Vasco de Pina faleceu em 1530 e tal, e assim temos que a horta originária do nome da rua de que estamos tratando, vicejaria já ali no primeiro quartel do século XVI.
Quando teria secado a horta? Não se sabe, mas com certeza depois de entrada da segunda metade do século, visto Cristóvão Rodrigues de Oliveira (1551 a 1554) apontar na freguesia de Nossa Senhora do Loreto (Encarnação) a RUA da ORTA (3) sem por sombras nos deixar indícios a respeito da beleza da hortaliça que ali crescia. Mas em 1583, segundo nos diz G. de B.(4), apoiado num estudo do senhor Dr. António Baião, parece que a horta tinha secado. Nos registos paroquiais, essa "horta seca" vemo-la em 1621.
Entre a rua direita do Loreto e a Rua da Horta Seca e com frente para as Portas de Santa Catarina (actual Largo de Camões), existiram uns prédios modestos, que após o Terramoto de 1755 os seus estragos eram consideráveis e, talvez por isso, seus proprietários os abandonassem. Neste lugar, tinha também o Duque de Lafões um paradeiro(5). Chamava-se aquele sítio «os casebres do Loreto» que, por edital do Governador Civil de Lisboa de 12 de Outubro de 1860, determina que seriam deitados a baixo, criando assim um novo espaço. Esse Largo ultimamente formado pela demolição dos antigos prédios em ruínas compreendidas entre o Largo das Duas Igrejas, as Ruas Largas de S. Roque e do Loreto, a Travessa dos Gatos e a Rua da Horta Seca, seria designado com o nome de Praça Luís de Camões.
Diz-nos ainda Norberto de Araújo na sua Peregrinação em Lisboa: «desafrontou-se então o que viria a ser o "CAMÕES", durante a obra até 1863. Terraplenado o chão, vencida por uma cortina a dificuldade do desnível, empedrada a área da praça, começou a preparar-se o levantamento do monumento a Luís Vaz de Camões, inaugurado em 1867»
Nesta Rua da Horta Seca no número 20 um imponente edifício, inaugurado em 1954, instala a Casa da Imprensa (Associação Mutualista), que oferece aos seus associados benefícios materiais na doença, no desemprego e pensões a viúvas e órfãos dos jornalistas associados.
«A origem da Casa da Imprensa remonta à fundação da Associação de Classe dos Profissionais da Imprensa de Lisboa, em 1905, que, aquando da sua fundação, foi dotada de um Cofre de Beneficência e Pensões para os seus associados. Em 1924, a Associação da Classe transformou-se em Sindicato dos Profissionais da Imprensa de Lisboa e no ano seguinte, em 23 de Maio de 1925, por alvará do Presidente da República, Manuel Teixeira Gomes, o COFRE (adquiriu autonomia e transformou-se em Associação de Socorros Mútuos), sob a designação de Caixa de Previdência do Sindicato dos Profissionais da Imprensa Diária.
No dia 26 de Janeiro de 1926 era inaugurada a sede Social da Caixa de Previdência na Rua do Loreto. Mais tarde estuda-se a possibilidade da construção de um novo edifício sede. A inauguração da Sede prevista para o mês de Maio de 1954, só viria a realizar-se em 8 de Dezembro desse ano. »(6)
Na Rua da Horta Seca, Domingos Mendes Dias «O Manteigueiro» em 1787 mandou erguer uma luxuosa moradia. Nascido em Montalegre, Trás-os-Montes, cedo veio para a Capital. Exerceu várias profissões, todas de fraca remuneração, como aguadeiro e de marçano. Constitui, pois, mistério a forma como arranjou grossa fortuna. Há quem diga que aproveitou bem a desgraça do Terramoto. No século XVIII o transmontano já se intitulava comerciante e seu negócio mais conhecido era o das manteigas. Encomendou o projecto da moradia ao Arquitecto Real , Manuel Caetano de Sousa, autor do projecto da Biblioteca de Mafra, da Igreja da Encarnação (no Chiado), da capela da Bemposta e outras obras. Pediu ao Morgado de Vilar de Perdizes, António Pereira Coutinho, se o deixava tratá-lo por primo e lhe legaria o Palácio que estava a fazer em Lisboa.
Cumpriu-se o acordo e a família Pereira Coutinho instalou-se no Palácio do «Manteigueiro» logo após a sua morte (provocada por assaltantes que o apunhalaram). Em 1804 o Palácio era alugado ao Conde de Caparica, D. Francisco Silveira e Castro. Passou também pela morada o Marquês de LILLE, representante da França já no tempo de Napoleão III. Um dos habitantes célebres da residência foi o inglês João FLETCHER, negociante de vinhos e tinha armazéns no Ginjal.
Foi sede da Assembleia Lisbonense, uma verdadeira Academia,da qual faziam parte o Conde de Ferrobo, Silva Carvalho, Rodrigo da Fonseca e outros. Moraram também os Condes da Torre e o Visconde de Condeixa que depois adquiriu o imóvel. Nos primeiros anos do Século XX esteve na Rua da Horta Seca o Embaixador do Brasil, Costa Mota. Em 1910 após a República foi morada do Presidente Açoriano Dr. Manuel de Arriaga e sua família durante alguns meses.
A casa do «Manteigueiro», então ainda dos Condeixas, foi alugada e depois vendida à VACUUM OIL CAMPANY, uma empresa ligada aos petróleos que, após várias transformações, deu lugar à MOBIL OIL PORTUGUESA, S.A.R.L. que em finais do século XX se associou à BP.
Já depois da MOBIL estar instalada na Rua Castilho e deixar este Palácio, foi morada também e sede do Ministério da Indústria, sector hoje incorporado no Ministério da Economia e da Inovação proprietária do edifício ainda bonito, onde é possível encontrar uma escadaria de bom porte, e se podem admirar pinturas de Pedro Alexandrino.
(1) - Bairro Alto Volume I, página 212 - 2º Edição
(2) - Papeis pertencentes aos prazos de Vila Nova da Andrade, etc. - Arquivo da Misericórdia
(3) - SUMÁRIO
(4) - Lisboa de Lés a Lés (Luís Pastor de Macedo) Volume III página 191
(5) - Casas arruinadas, Edifícios velhos
(6) - Os Jornalistas Portugueses 1933-1974 de Rosa Maria Sobreira



8 comentários:

JFS disse...

Um assunto que me interessa - Lisboa antiga e a sua história. Será que no arquivo fotográfico da CML nos permitem obter fotos antigas digitalizadas ou se podem fotografar?
JFS

APS disse...

Fiquei satisfeito em saber o seu interesse por assuntos de Lisboa antiga.
Quanto às fotos estão disponiveis on-line no site da cm-lisboa-arquivo fotográfico é só procurar por tema.(no meu caso são Ruas).
APS

Maria disse...

Parabéns pelo seu trabalho de pesquisa, sem dúvida, exaustivo e muito interessante. Aqui estou explorando Lisboa Antiga, porque preciso de conhecer um pouco da história da Rua da Horta Seca. Esta RUA vai entrar,agora, na minha vida e tenho de conhecer bem a sua essência, para despertar a minha sensibilidade a fim de me envolver bem no local.

Bem certo: QUE OS ANJOS ME AJUDEM! Mais uma batalha...

APS disse...

Cara Maria

Agradeço os elogios ao meu trabalho.
A Rua da Horta Seca, também me traz recordações. A minha mulher trabalhou nessa rua durante vários anos. Eu trabalhava na Rua Dr. Luís de Almeida e Albuquerque a Santa Catarina.
É realmente salutar saber que alguém, antes de se integrar numa rua queira conhecer a sua história.
Posso assegurar que esta rua além de bonita conta muitas histórias.
Desejo-lhe muita boa sorte.
cumprimentos
APS

mize disse...

Muitos parabens pelo seu trabalho. Sou uma apaixonada por estes temas, e existe muita pouca informação sobre esta Lisboa tão rica em História. Bem haja por esta sua investigação.

APS disse...

Cara Mize
Os meus agradecimentos pelas suas palavras.
Fico contente em saber que gosta destes temas de história e, posso garantir-lhe que muita coisa tem ficado por divulgar.
Um bem haja também para si!
Cumps
APS

Luiz Saldanha Lopes disse...

A título de curiosidade:
Do Livro de Recepções da Venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Mafra:

Aos 4 dias do mez de Março de 1754 por ordem desta Mesa tomou o Habito da Veneravel Ordem Terceira da Penitencia de nosso Serafico Padre S. Francisco Mariana Thereza Xavier Baptizada na freguezia de Nossa Senhora dos Olivais e moradora na rua de Bras da Costa a horta Seca freguezia de Nossa Senhora da Emcarnação filha de Francisco Xavier e de Joaquina da Emcarnação ambos Baptizados na freguezia de Nossa Senhora dos Olivais Neta pella parte Paterna Antonio de Souza e de Maria da Silva e pella parte Materna Miguel Rodrigues e Inocencia Maria em fée do que fis este termo que assigney
Fellippe Da Costa
Secretario
e acabado o seu anno de noviciado fez Profissão nas mãos do Commissario Frei Jozé da Estrella Religiozo neste Convento de Mafra aos 6 do mez de Março do anno de 1755 emfée do que fis este termo que assigney
Filippe da Costa
Secretario

Atentamente
LSL

APS disse...

Caro Luiz Saldanha Lopes
Obrigado pela sua achega a este blogue.
Nessa época do século XVIII anotavam-se os assuntos mais detalhadamente, hoje com a aceleração em que vivemos, deixa-se o pormenor para se fixar no essencial.
Renovo os meus agradecimentos, despedindo-me com amizade.
Cumprimentos
APS
PS - Esta freguesia de Nª.Sª. da ENCARNAÇÃO (o seu templo) acabou por ser bastante afectado com o terramoto de 1755.